Entrevista com Boris Svetogorsky, da Embaixada do Uruguai

maio 13 • Notícias • 728 Views • Comentários desativados em Entrevista com Boris Svetogorsky, da Embaixada do Uruguai

Ministro da Embaixada do Uruguai responsável pelos temas de cooperação em matéria de ciência, tecnologia e inovação, Boris Svetogorsky atua há 28 anos no serviço exterior do Uruguai. Como conta em entrevista para a Divisão de Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), o ministro iniciou a carreira no norte da África, desempenhando funções na República Argelina Democrática e Popular. Boris também atuou em Viena, entre os organismos especializados em Nações Unidas, nas Nações Unidas de Nova York, e como cônsul geral do Uruguai em Chicago, além de ministro do Uruguai da Santa Sede.

Em entrevista, o ministro explica sobre a cooperação entre o Brasil e o Uruguai e detalha as ações realizadas conjuntamente por ambos os países. Leia a entrevista abaixo (em versão integral) ou veja a entrevista no Youtube clicando aqui (em versão editada).

O senhor poderia comentar sobre a cooperação internacional em Ciência, Tecnologia e Inovação – CT&I – entre o Uruguai e o Brasil?

Uruguai e Brasil subscreveram seu primeiro acordo de cooperação científica e técnica no ano 1975. Muito mais tarde, este acordo foi ampliado por um memorando de entendimento para a cooperação científica, tecnológica, acadêmica e inovação, no ano 2010. No ano 2011, Uruguai e Brasil subscreveram uma declaração conjunta sobre o estabelecimento de cooperação bilateral entre ciência, tecnologia e inovação. E Uruguai, no ano 2010, criou a Agência Uruguaia de Cooperação Internacional, a AUCI, que é a encarregada de coordenar com seu par brasileiro, a Agência Brasileira de Cooperação e com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia e com os ministérios competentes, cada um dos projetos em matéria de cooperação que estão em curso.

Mas podemos dizer que 2013 foi um marco importante porque Uruguai e Brasil começaram a aprofundar seu esquema de integração bilateral. Assim, a cooperação bilateral aparece no âmbito de um grupo de alto nível criado por ambos os governos, presidido pelos vice-conselheiros do Brasil e do Uruguai, no qual implementamos um marco de ação para o desenvolvimento sustentável e para aprofundar a integração em todo nível entre os nossos dois países.

Estes acordos que eu mencionei, podemos dizer, conformam o principal marco jurídico e de ação que ambos os países, Uruguai e Brasil, têm para fomentar a cooperação bilateral nessas áreas que são cruciais para o desenvolvimento de ambos. Neste momento, Uruguai está determinado a apresentar-se frente à comunidade internacional em sua condição de país licitante de cooperação técnica à luz do que foi sua recente graduação como país de renda média alta. O que já não o faz praticamente elegível para ser um mero receptor de cooperação. Esta situação nos conduz a buscar associações, parcerias – partnerships, com outros países, fundamentalmente países de economias emergentes. E daí a importância de desenvolver ações conjuntas em matéria de cooperação em ciência, tecnologia e inovação com o nosso país vizinho, a República Federativa do Brasil.

O Brasil é um dos maiores licitantes em matéria de cooperação Sul-Sul, aportando mais de um terço deste esquema de cooperação internacional. E o Uruguai aparece hoje em dia assinalado como um país provedor de cooperação técnica. Daí que resulte necessário compatibilizar nossos esforços conjuntos. Ambos os países devemos realizar esforços conjuntos para consolidar nossas respectivas economias, para fazê-las muito mais inclusivas e, por isso, se podem mencionar duas áreas, que eu diria, seriam vitais para alcançar esses objetivos. A primeira é alcançar uma maior inovação aplicada aos processos produtivos. E uma segunda seria melhorar os conteúdos em matéria de educação para as nossas duas sociedades, incorporando o uso das novas tecnologias. São os dois grandes desafios que penso que teremos agora nos próximos tempos.

Quais são os principais casos de sucesso da cooperação internacional em CT&I entre o Uruguai e o Brasil?

O programa de trabalho que estamos envolvidos hoje é bastante amplo e diverso e contempla vários aspectos. A integração das cadeias produtivas em setores de alta tecnologia constitui um fator crucial para alcançar uma ótima integração econômica e isso, por sua vez, pode ser determinante também para lograr uma melhor inserção internacional de ambos os países. Podemos alcançar uma melhor cooperação em setores tais como tecnologias digitais da informação e comunicação, biotecnologia, fármacos, biocombustíveis, petróleo e gás, que são dois setores industriais muito importantes para o Brasil. Além disso, em transformação de alimentos, biomedicina e nanotecnologia eletrônica. Hoje em dia, estes setores constituem as prioridades assinaladas em matéria de cooperação no campo científico e tecnológico e da inovação.

Podemos estabelecer também um maior número de programas bilaterais de cooperação no que é a fronteira entre o Brasil e o Uruguai. E outra questão relevante será a necessidade de dotar de uma maior infraestrutura, de maiores meios, de maiores recursos, às comunidades científicas do Brasil e do Uruguai, que é também um motivo de preocupação bilateral, sobretudo nas áreas de biotecnologia, biomedicina e tecnologias de informação e comunicação que requerem um esforço conjunto e um exame adequado para serem ampliadas. Como exemplo claro de vontade de cooperação bilateral podemos mencionar a decisão que adotou Uruguai de ter o sistema japonês brasileiro de televisão digital. É uma nova possibilidade para aprofundar nossa cooperação mútua e para conseguir melhores vantagens nos campos acadêmicos, científicos e culturais.

Outros projetos neste tipo de campo da televisão digital, que é muito amplo, estariam orientados a criar laboratórios de aplicações interativos e de conteúdos digitais. Por exemplo, com a assistência do Banco Mundial, Uruguai e Brasil estão participando do fomento para a capacitação independente para criar conteúdos digitais interativos. E outro objetivo que fixamos de comum acordo é o de ampliar a cooperação industrial em matéria de televisão digital. Outro projeto é o de inclusão digital. Tratamos de intercambiar experiências sobre projetos no uso da internet em espaços públicos, como melhorar e favorecer o uso do governo eletrônico, como capacitar nas tecnologias de informação e comunicação aproveitando também a experiência Uruguai chamada “Um niño e uma computadora”, com atividades nas escolas, que foi implementado com total êxito em nosso país. Outra das iniciativas conjuntas muito importantes engloba o desenvolvimento de produtos de alto conteúdo, para que possam ser de uso aplicável em ambos os países.

Em sua opinião, o que é necessário para que essa cooperação seja ampliada?

O campo do desenvolvimento destas atividades, da cooperação bilateral ou internacional, é muito variado e diverso, e nos oferece múltiplas oportunidades para ampliar nossa cooperação bilateral. Eu começaria citando a importância de mudar e mobilizar os cientistas e especialistas entre nossos dois países como algo essencial para aprofundar os esquemas de cooperação bilateral em matéria de tecnologia e de inovação. E também de pesquisa científica, de investigação científica. Aumentar os fundos para a cooperação econômica internacional é vital, pois da mesma se podem implementar ações complementares para melhorar e ampliar a cooperação tecnológica e científica em áreas-chave, como podem ser, por exemplo, as fontes de energias novas e renováveis, a proteção do meio ambiente e a competitividade industrial, entre outros setores.

No que diz respeito às tecnologias de informação e comunicação, se pode intensificar a comunicação em matéria de telecomunicações, segurança cibernética e televisão digital. Agora, em referência à produtividade, será fundamental continuar com os esforços que ambos os governos desdobram para melhorar a integração das nossas cadeias produtivas. Sobretudo melhorar os sistemas também de produção agrícola com a utilização da biotecnologia no que se refere ao uso de transgênicos e organismos biologicamente modificados para ambos os países poderem ser mais competitivos. Nesse sentido, tenho que mencionar a cooperação que se implementou entre a Embrapa com o Instituto de Investigações Agropecuárias do Uruguai (INIA), e o laboratório tecnológico também do Uruguai. Quer dizer que, com o Brasil, a cooperação científica e tecnológica poderia orientar-se a facilitar e promover o intercâmbio das equipes de acadêmicos e cientistas. Segundo, estabelecer melhores vínculos permanentes e melhorar a institucionalização dessa cooperação. E logo favorecer fundamentalmente a transferência de tecnologias novas estimulando a inovação em todo nível entre nossos dois países. Em relação à inovação, o Uruguai figura no número 52 do índice mundial de inovação e é o quarto país na América Latina. Talvez tenhamos como um dos maiores desafios a necessidade de gerar entre Brasil e Uruguai uma maior cultura em nível empresarial e industrial que leve ambos os países a serem mais inovadores. Da perspectiva do Uruguai, creio que se devam assegurar maiores recursos destinados à cooperação internacional para atender a ambas as demandas em nível global.

Em que cenário o Uruguai se encontra atualmente mundialmente?

Uruguai é um sócio, para destacar hoje em nível internacional, no referente à cooperação. Pois participamos hoje em todos os esquemas e tipos presentes desenvolvendo programas e projetos que se definem sob o tipo de cooperação multipaís, como pode ser no âmbito das Nações Unidas, a cooperação regional, como no âmbito do MERCOSUL, da UNASUR, na cooperação Sul-Sul, entre países em desenvolvimento e na cooperação triangular. Segundo dados da nossa agência uruguaia de cooperação internacional, uma ampla porcentagem de mais dos 400 projetos que são realizados com fundos da cooperação internacional no Uruguai estão destinados a atender a temática de meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, ao fomento da utilização de fontes de energias novas e renováveis. Esta é a nossa pequena, nossa modesta contribuição para melhorar as condições ambientais globais e atender esta preocupação da comunidade internacional como é a situação das mudanças climáticas.

No Uruguai, podemos contar cerca de 60 projetos em curso, que concentram áreas tais como meio ambiente, energia, mudanças climáticas, energias novas e renováveis, recursos hídricos, eficiência energética e biodiversidade. Além disso, participamos do Fundo de Adaptação à Mudança Climática. É um fundo do qual participam os estados que são partes do Protocolo de Quioto e que são vulneráveis aos efeitos adversos das mudanças climáticas e Uruguai, por meio da sua Agência Nacional da Inovação e Investigações – a entidade responsável para gerir e implementar este tipo de projetos e programas. E junto com o Ministério de Pecuária, Agricultura e Pesca implementou um projeto para mitigar os efeitos das mudanças climáticas em pequenas agriculturas vulneráveis.

Com o Brasil devo mencionar a doação que recebemos no ano passado de duas estações meteorológicas para estudar e prevenir fenômenos metereológicos adversos em nossa região e nossa supraregião, dando mostras de que existe uma estreita e genuína cooperação entre os nossos dois países. Quanto à erradicação da pobreza, o outro grande tema da agenda global, também é Uruguai um país que pode demonstrar com atos e com estatísticas, os esforços que tem realizado para paliar esta situação no plano nacional. Não em vão, recebeu uma distinção no âmbito do Programa das Nações Unidas para a Agricultura, como um país que cumpriu com esta meta, com este objetivo do milênio, que estava planejado para este presente ano de 2015 e o Uruguai o cumpriu antes. Além disso, Uruguai lidera a lista de países que trabalham com projetos de cooperação em países da América Latina, tendo hoje mais de 75 projetos em curso.

Como vê o papel da cooperação internacional em CT&I para a resolução de problemas globais a exemplo das mudanças climáticas e da fome?

Nosso país atravessa um período de crescimento sustentável desde o ano 2002 e, junto com a implementação de políticas sociais acertadas, temos conseguido melhorar nossos indicadores sociais, resultado visível na localização que tem Uruguai no índice de desenvolvimento humano elaborado pelas Nações Unidas. Esta situação nos coloca então em uma situação de país socioconfiável quando se vai realizar uma cooperação técnica para o fortalecimento de capacidades, para a formação de especialistas, assim como o envio de técnicos nacionais a outros países em vias de desenvolvimento para compartilhar o que têm sido nossas experiências em diversas áreas. As mudanças climáticas e a erradicação da pobreza constituem hoje uma constante preocupação, permanente, não só para o Uruguai, mas também constituem uma prioridade para examinar a agenda em nível global.

Brasil e Uruguai têm que adaptar-se aos novos tempos, às novas necessidades, aos novos desafios para atender temas tão relevantes como são a assistência humanitária, a escassez de alimentos no mundo, a crise do setor energético, a situação das mudanças climáticas e a transferência das novas tecnologias. A cooperação é uma excelente ferramenta para inserir-nos em nível regional. E a mesma constitui também e contribui a dar-nos uma maior visibilidade no campo internacional. Por isso a concebemos no Uruguai como um pilar essencial da nossa política exterior.

Conheça o trabalho da Embaixada do Uruguai em http://www.emburuguai.org.br.

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