A cooperação internacional e o esporte: Brasil conquista sua melhor marca nos Jogos Paralímpicos

out 25 • Notícias • 1573 Views • Comentários desativados em A cooperação internacional e o esporte: Brasil conquista sua melhor marca nos Jogos Paralímpicos

A cooperação entre países é um dos principais lemas do esporte olímpico e paralímpico internacional. Após o reconhecido sucesso do Brasil na realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, que ocorreram no Rio de Janeiro em agosto e setembro de 2016, o país comemora conquistas que vão além do esporte.

No caso do esporte paralímpico, os atletas brasileiros que participaram dos Jogos Paralímpicos de 2017 superaram marcas e quebraram recordes de outras edições. A delegação brasileira conquistou 72 medalhas, superando a marca das 47 medalhas conquistadas nos Jogos Paralímpicos de Pequim, em 2008. Os atletas representaram o país no pódio em 13 esportes, sendo quatro deles de maneira inédita (canoagem, ciclismo, halterofilismo e vôlei sentado).

Em entrevista especial para o site da Divisão de Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), Edilson Alves, diretor técnico do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), conta sobre a importância da cooperação estabelecida entre o Brasil e outros países para a conquista dos bons resultados nos últimos Jogos.

Como explica o diretor técnico do CPB, a equipe paralímpica brasileira tem estabelecido acordos com países em todo o mundo, com a intenção de desenvolver o Brasil na área e colaborar para a disseminação do esporte e do conhecimento.

Confira!

Edilson Alves (Foto de Saulo Cruz)

Edilson Alves (Foto de Saulo Cruz)

Quais ações o Comitê Paralímpico Brasileiro tem realizado com outros países em busca do crescimento do esporte paralímpico brasileiro? Quais as expectativas dessas parcerias?

Nós temos várias parcerias e acordos de cooperação assinados. O Brasil é o grande líder da região da América Latina, sobretudo da América do Sul, então nós temos a responsabilidade de trabalhar com nossos parceiros. Assinamos acordos de cooperação com o Equador, a Colômbia, o Chile e o Uruguai, além de alguns com a América Central, como é o caso da Nicarágua. A intenção nesses casos específicos é desenvolver e deixar a nossa região mais forte. Cada vez que precisamos que, de fato, um atleta nosso seja testado contra seus principais adversários, é preciso ir para a Europa, Estados Unidos, Canadá, Austrália e China, onde estão os principais adversários. Isso custa muito dinheiro. Nossa intenção é fortalecer o país para que as nossas competições sejam cada vez mais fortes.

Então, por exemplo, embora o Circuito CAIXA Loterias seja nacional, contamos com a participação da Argentina, do Chile e da Colômbia. Isso torna a competição mais forte, com um maior número de atletas no ranking, o que faz com que não precisemos ficar competindo só entre brasileiros. Passa a ser um intercâmbio quase que contínuo. É importante porque podemos desenvolver a região e ter uma troca de conhecimento boa com esses países. A Colômbia tem um dos melhores ciclismos do mundo. Aprendemos muito com a Colômbia no ciclismo. Por outro lado, ensinamos muito em atletismo e em natação, áreas nas quais o Brasil é mais forte.

Também temos compromissos com os países africanos de língua portuguesa. Trabalhamos muito forte no desenvolvimento da África. Em desenvolver, sobretudo, os países africanos de língua portuguesa. Quando vamos lá, não ficamos restritos aos países de língua portuguesa, todos os países em volta acabam se beneficiando disso. Então esse é um compromisso do Brasil com a comunidade internacional em desenvolver a África. Alguns países fortes, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, também fazem isso em outras regiões. A nossa responsabilidade é desenvolver a África.

Como é que o CPB ajuda outros países em relação às questões técnicas e operacionais?

Basicamente, os nossos acordos compreendem o treinamento conjunto das equipes entre o Brasil e outros países, de modo que um aprenda com o outro e cresçam juntos; e transferência de conhecimento com a realização de cursos para técnicos, classificadores funcionais e árbitros ou intercâmbio de competição. Alguns países participam das nossas competições muitas vezes gratuitamente, do mesmo modo que nós vamos para a competição deles gratuitamente. Com isso, temos um nível maior de participação em competição, intercâmbio e treinamento.

Alguns países sequer têm Comitê Paralímpico Internacional, então os ajudamos também a trabalharem a parte administrativa para que se crie um comitê e para que eles consigam se legalizar perante as regras e as normas do IPC. Acabamos de ajudar também o Peru, que vai receber os próximos Jogos Parapanamericanos, em Lima, e não tem Comitê Paralímpico. Além disso, também tivemos em nossas competições a participação de alguns atletas do Peru.

Também temos os parceiros que são tão fortes quanto o Brasil ou até mais fortes que o Brasil. Há, por exemplo, uma parceria muito forte com a Suécia. A Suécia já é um país bastante desenvolvido e é uma liderança no esporte de inverno. O Brasil pela primeira vez, na Suécia, participou com dois atletas dos esportes de neve. Aprendemos, portanto, o que eles têm de melhor e passamos para eles o que nós temos de melhor. Os suecos estiveram no Brasil treinando com a gente em duas oportunidades, pois as nossas equipes de atletismo e natação treinaram junto. Por sua vez, os nossos atletas de neve estiveram lá no Centro de Treinamento da Suécia aprendendo.

Outro exemplo é a China, que tem interesse em aprender conosco o futebol de cegos, no qual o Brasil é o melhor. O Brasil ganhou todas as medalhas de ouro que estiveram em disputa até hoje nos Jogos Paralímpicos. A China quer aprender com a gente e nós queremos aprender com a China. Então, para construir o nosso centro de treinamento, visitamos o centro de treinamento da China. Também temos parcerias para o desenvolvimento de outras modalidades. O basquetebol da Grã-Bretanha tem uma parceria com o nosso basquete, a Grã-Bretanha é hoje a terceira força do esporte paralímpico no mundo.

Qual a sua visão em relação a essa mudança de visão que o esporte paralímpico tem vivido? A sociedade passou a ver o esporte paralímpico como alto rendimento?

A intenção do Comitê Paralímpico Brasileiro é justamente essa, fazer com que o esporte paralímpico fique 100% profissional, 100% altíssimo rendimento. Costumamos dizer o nosso planejamento tem um conceito de teia, no qual o atleta inicia no esporte, e então ele tem várias ramificações dessa teia por onde ele pode seguir. Nem todo atleta paralímpico ou nem todo atleta com deficiência – até porque, para deixar correto o termo, atleta paralímpico é o atleta que foi aos Jogos Paralímpicos – vai chegar aos Jogos Paralímpicos.

Por outro lado, ele pode competir durante a vida toda dele, seja porque gosta de competir, seja porque ele pretende manter-se em atividade para ter uma melhor qualidade de vida e porque o esporte de alto rendimento é assim. Para os Jogos Paralímpicos, o Brasil classificou 278 atletas, a maior delegação da história. Mas temos 10 mil atletas que praticam esporte paralímpico no Brasil, então o esporte de alto rendimento é esse, é da natureza do esporte de alto rendimento. Vamos olhar para a seleção brasileira de futebol. Quantos grupos de futebol a gente tem? Quantos brasileiros praticando futebol no Brasil ou pelo mundo?

O tempo todo nós trabalhamos para que o esporte paralímpico se profissionalize e para que as pessoas consigam ter a percepção do que é o esporte paralímpico. É importante ressaltar que o esporte paralímpico não é diferente do esporte olímpico. Ele só tem uma característica: as pessoas que praticam têm uma deficiência. Somente isso. Mas o nível de competição, de treinamento e de comprometimento é o mesmo. Nós temos atletas que treinam oito, dez horas por dia. Há atletas que treinam um tempo na piscina e outro período na academia e à noite ainda estão fazendo treinamento mental com psicólogo e atendimento nutricional com nutricionista. São atletas que dedicam de oito a dez horas por dia para a profissão que escolheram. Então, o que precisamos fazer é com que a população brasileira tenha essa percepção.

Essa mudança vem ocorrendo por qual motivo?

Costumamos dizer que temos alguns divisores de águas. A aprovação da Lei Agnelo Piva, com recursos fixos para o esporte paralímpico, nos deu uma oportunidade de criar um planejamento em longo prazo. Chegamos a ter momentos em que realizávamos um campeonato brasileiro da modalidade no ano e não tínhamos recursos para mais nada. Então como é que podemos manter um atleta que participa de uma competição por ano? Qual a motivação dele?

Com recursos, nós conseguimos ter campeonatos regionais e nacionais. Hoje, nós temos o circuito CAIXA Loterias de Natação com sete etapas, ou seja, com competições o ano inteiro, além das competições internacionais. É isso que tentamos trabalhar, de modo que o esporte paralímpico fosse se profissionalizando. Quando passamos a ter um calendário fixo com muitas competições, com muito trabalho, certamente os atletas foram se interessando. Quando o atleta vai crescendo, ele precisa de profissionais mais qualificados ao lado dele. Com isso, os profissionais começaram a olhar o esporte paralímpico. Hoje, há profissionais que saem da faculdade já pensando: “eu quero trabalhar no esporte paralímpico”.

Antes, nós tínhamos que recrutar no esporte olímpico profissionais que tivessem tempo sobrando para atender os paralímpicos. Hoje não. Por exemplo, o nosso técnico brasileiro da natação hoje veio do Corinthians. O clube dele tinha acabado de ser campeão brasileiro de todas as categorias da natação. E a gente foi lá e fez uma proposta de trabalho para ele, ou seja, ele deixou o esporte olímpico para trabalhar com o esporte paralímpico. Hoje, nós conseguimos ter essa visibilidade. Temos trabalhado para que isso acontecesse há muitos anos.

Mas ainda é importante que a sociedade perceba isso. Hoje não se percebe porque é uma questão comercial. O que é que passa na TV? Futebol. Em segundo lugar, futebol. Em terceiro lugar, futebol da terceira e quarta divisão. Depois vem o voleibol, que já está bem à frente dos outros esportes. Eventualmente, nos canais fechados vemos um ou outro esporte. O esporte paralímpico tem algum destaque maior na televisão quando estamos próximos dos Jogos Paralímpicos ou dos Jogos Parapanamericanos. Então, isso é uma questão comercial. Por que é que aparece o futebol? Porque as empresas hoje investem em futebol.

Temos cada vez mais crescido com ídolos do esporte paralímpico. Então, por exemplo, o Daniel Dias é uma referência no Brasil, não só para o esporte paralímpico, mas para o esporte. Até pouco tempo atrás tínhamos como referência o Clodoaldo Silva e a Ádria Santos, mas estava mais restrito ao Clodoaldo e à Ádria. Hoje, quando falamos de atletas paralímpicos, temos uma porção deles como exemplos: Terezinha Guilhermino, André Brasil, Daniel Dias, Lucas Prado, e Ricardinho [Ricardo Steinmetz Alves] e Jefinho [Jeferson da Conceição Gonçalves], no futebol. Quanto maior o número de destaques, mais o esporte paralímpico vai ficar conhecido. Quando falamos de Daniel Dias, em qualquer lugar as pessoas sabem quem ele é. Estamos conquistando aos poucos essa transformação.
Para conhecer mais o trabalho realizado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro, acesse: www.cpb.org.br.

Veja a entrevista com Edilson Alves (em versão editada) publicada no Youtube clicando aqui.

Fonte: Comunicação Social da DRI/Ibict

Foto de capa: Jogos Paralímpicos Rio 2016 – 100m livre masculino S5– Daniel DIAS (Cezar Loureiro/MPIX/CPB)

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